segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Uma jornada ao inferno

Não quero me esquecer, por isso escrevo.

O dia 13 de agosto amanheceu gelado na Penitenciária Odon Ramos Maranhão, em Iperó.

Hoje minha prisão completa três anos. Um calvário injusto, um lugar insalubre, uma sociedade profundamente doente.

São cinco e meia da manhã e eu desperto, após uma noite mal dormida, na cela destinada ao presos que saem para "sumariar" processos em outras cidades.

Tenho de ir para Americana, distante 140km de Iperó, onde serei interrogado novamente pelo juiz, a respeito das atividades da minha igreja rastafári.

Meus colegas de presídio haviam me prevenido sobre o chamado "trânsito" e sei, de antemão, que esses 140km se transformarão em vários dias de sofrimento.

A cela do "trânsito" não passa de um cubículo escuro e sem ventilação, onde pudemos jogar nossos esqueletos em velhos colchões infectos. 
Sem saber se era dia ou noite, adormecemos.

Cinco e meia da manhã e os agentes nos alertam para ficarmos prontos, vestidos apenas com bermuda, camiseta e chinelo. Já sabemos que não deveremos usar cuecas, pois os PM's ficam furiosos quando isso acontece.

Saímos daquela cela, demos alguns passos em direção ao caminhão de transporte. A manhã estava muito gelada!

Mandaram que tirássemos os chinelos e assim aguardamos, em pé, por mais de uma hora, até a chegada dos funcionários que iriam nos acompanhar. Aí, então, mandaram que tirássemos as roupas, fizéssemos os agachamentos e tudo o mais que é exigido. 

Levamos nossas sacolas conosco, com todos os nossos pertences.

Depois dessa revista, mandaram que entrássemos no caminhão, descalços e sem camisa. 

O caminhão de transporte é uma tortura à parte: tem uma chapa dividindo a carroceria ao meio, na longitudinal. Nós sentamos de um lado, onde fomos algemados num cano e acorrentados pelos pés. Nossos rostos ficavam bem próximos da lataria e, por ventilação, apenas uma ventana. Do outro lado, jogaram nossas sacolas.

A escuridão lá dentro só era quebrada porque conseguíamos ver a claridade penetrando pelas frestas das chapas de aço.

E ali ficamos por mais de hora, com o sol esquentando aquele metal.

A friagem que vinha dos pés, entretanto, permanecia.

Finalmente o caminhão começou a andar e pudemos receber algum ar para respirar.

Quarenta minutos depois, mais ou menos, chegamos em Capela do Alto. Para nossa surpresa, naquele espaço exíguo, colocaram mais cinco pessoas. Éramos nove, agora, amontoados e algemados naquele transporte.

Foi bom termos ficado sem tomar o café da manhã porque o balanço do caminhão certamente nos faria vomitar.

Eu lembrava das imagens dos trens que transportavam judeus para os campos de concentração. Onde chegaríamos? O que nos aguardava? Pedia à Jah força e coragem.

Acredito que rodamos mais uma hora e meia e o caminhão parou novamente. Devia ser hora do almoço e estávamos na penitenciária de Guareí, uma "rodoviária". Os agentes pararam para almoçar e mandaram que saíssemos um a um para usar uma espécie de banheiro. 

Nessa pequena caminhada - do caminhão até o cubículo improvisado em banheiro, pude ver uma avenida, algumas árvores e carros, o céu azul, e me alegrei com aquilo. Há três anos não via o céu. Respirei profundamente algumas vezes, tentando reter na memória aquele breve momento. Muito breve momento. 

Os agentes jogaram nossas sacolas no chão, mandaram que pegássemos qualquer uma delas e nos dirigíssemos à uma espécie de corredor, onde, enquanto nós chegávamos, outros presos saíam.

Nesse corredor haviam três celas. Estávamos em quase setenta prisioneiros e fomos divididos em grupos de mais ou menos vinte e cinco.

Mortos de fome, sede, cansaço, calor. E com os pés no chão.

Na cela em que fiquei, haviam três treliches, nenhum colchão; o banheiro se resumia  a um buraco com um cano logo acima, e do outro lado havia uma torneira a meio metro do chão. Não sei se proposital ou não, o piso fazia com que a água se acumulasse no meio da cela. Deve ter sido erro dos construtores, não é?

O fato é que não somos animais. Somos seres humanos e, desta forma, procuramos agir com o máximo de inteligência e conseguimos, um a um, tomar banho e fazer nossas necessidades. A única recordação boa, digamos assim, foi a comida servida: era saborosa. Tinha salada de folhas, coisa que não vemos em Iperó.

Existe uma regra nos presídios que nos obriga a dizer por que estamos presos e, quando chegou minha vez, notei um silêncio naquele tumulto. Então o "pastor" da "igreja da maconha" estava ali? Tive que contar minha história várias vezes.

Eu estava vivendo aquela história insana. Por que meu Pai me reservou este cadinho de dor? Cada vez que me fazia esta pergunta, meu espírito se obrigava a fortalecer. Isso também iria passar.

As horas passaram, o barulho foi diminuindo, o sono chegou. E entre amarguras e esperanças, dormimos naquele lúgubre espaço da Penitenciária de Guareí.

Estava escuro ainda, quando fomos despertados pelos agentes batendo grade e mandando que nos aprontássemos.

Passamos por todo o protocolo de revista novamente (a cada chegada e a cada saída era isso) e subimos num outro caminhão - maior, onde fui algemado a um tal de "Gigante". Por falta de espaço, eu e o "Gigante" ficamos mais juntos do que irmãos siameses. O pior é que ele não foi com a minha cara. Do outro lado, um psicopata gritava: - "quem vomitar morre! Eu já matei nove e tô loco pra matar mais um!"

E assim seguimos para Itapetininga, onde uns desceram e outros subiram. Mais uma hora e meia e chegamos na "rodoviária" da Penitenciária de Hortolândia - o mais próximo das paisagens infernais que Dante Alighieri descreve em seu livro.

O protocolo foi seguido novamente, causando muito constrangimento a todos nós.

Fomos levados - mais de cem homens - para uma cela pequena, onde nada mais restava senão ficarmos em pé, colados uns aos outros. Novamente me lembrei dos campos de concentração nazistas que vi tantas vezes em filmes. Eu estava ali, vivendo aquilo. Jah! Conforta meu espírito e não permita que eu tombe.

Havia muitas preocupações fervilhando em minha mente, mas aquela situação esdrúxula, por demais dolorosa, no Estado mais rico do Brasil, ocupava meus pensamentos. Eu pensava, pensava, e não encontrava explicação do por que o Estado, o Sistema, precisava ser tão cruel.

Acho que nunca me senti tão só como naquele espaço apertado, onde mal conseguia me mover. 

Estava algemado a um outro prisioneiro. Devo lembrar que as algemas de Guareí eram um sofrimento à parte.

Como eu disse, a P5 de Hortolândia funciona como uma "rodoviária", onde os presos partem para "sumariar seus BO's" nas cidades de origem. Era nossa obrigação ficarmos atentos ao chamado dos agentes quando eles gritavam o nome das cidades.

Finalmente gritaram Americana! Fui pedindo licença, em meio àquele aperto, algemado ao outro preso, até a porta da cela. Os agentes retiraram a algema apertada de Guareí. Que alívio! Um rápido alívio, pois logo vieram os agentes do CDP de Americana e colocaram outras.

Novamente o protocolo de revista, novamente o caminhão de transporte mas - pasmem - muito pior que os outros (se é que seria possível esta classificação). Mas era pior, porque eles carregavam dentro um tambor de óleo diesel. E ali ficamos - quatro pessoas - naquele caminhão apertado e sem ventilação, com o cheiro forte do diesel, por um bom tempo.

Eu só pensava em chegar logo em Americana. Saímos de Iperó na quinta-feira de manhã e já era sexta-feira à tarde. 

O caminhão finalmente se pôs a caminho. Reconheci, sem ver, a Rodovia Anhanguera, o pontilhão da Goodyear e a subida do CDP.

Mais uma vez a revista, mais uma vez um corredor estreito, mais uma vez uma cela apertada.

A latrina, o banho frio, o choque de personalidades, a exposição do "seu crime"... e, por fim, a exaustão, o sono pesado, o desejo de despertar do pesadelo.

O dia seguinte foi um sábado. Recebemos o café da manhã saboroso e mais uma vez a inevitável comparação com o desjejum oferecido em Iperó. 

Pude lavar minhas roupas e me conscientizei de que precisamos de muito pouca coisa para sobreviver: um cobertor, uma toalha de banho, duas camisetas, duas bermudas e um chinelo.

A cela de trânsito do CDP de Americana é um corredor de serviço. Graças à Jah, outros prisioneiros mandaram uma TV. Tudo seria muito pior sem ela, pois a convivência com quem não conhecemos nem sempre é fácil.

Eu, então, comecei a me concentrar no depoimento que daria em juízo. Por que meus advogados não foram falar comigo em Iperó? Como estariam meus queridos? Estariam preocupados comigo? Como seria a minha defesa? Estaria sozinho?

Perguntas e aflições perpassavam minha alma como flechadas. Eu me apegava com meu Pai misericordioso: Ele não me abandonaria.

Comecei a escrever com afinco. Faria a minha defesa eu mesmo.

Mas, como nada é fácil dentro do ambiente prisional, tive que explicar para os outros o que tanto escrevia. Tive que mostrar aos outros do que se tratava: a falta de confiança gera graves transtornos. Pensam que tudo é feito com o intuito de delação. Um horror à parte.

Mais uma vez me dei conta das pequenas coisas que podem nos trazer alento e esperança. Pude dormir num colchão, sozinho. A comida era boa e tinha até um doce de sobremesa. O banho era frio, mas não como em Iperó: lá a água é gelada. E o banheiro tinha alguma privacidade.

Desde que saí de Iperó, meu intestino não funcionou. Certamente em razão da total falta de privacidade, ou seja, onde um comia o outro "cagava". Será que um dia saberei a explicação dessa humilhação imposta pelo Sistema Prisional?

E passou o fim de semana. E nenhuma noticia dos advogados ou de quem quer que seja.

Pedi uma entrevista com o diretor do CDP e perguntei se ele poderia me autorizar a levar as 30 páginas que havia escrito até o fórum e ele disse que não, que o preso não é autorizado a levar papel algum.

Num gesto de desespero diante da situação, pedi ajuda a um advogado que estava por ali. Invocando uma ajuda humanitária, pedi que ele entregasse aqueles papéis no fórum de Americana naquela tarde, pois eu me sentia em total desamparo.

Dá para imaginar o estado de espírito que me assaltou diante de dias tão dolorosamente atravessados?

Por fim, algemado nas mãos e nos pés, escoltado por uma viatura da Policia Militar que, diga-se de passagem, me tratou com respeito, fui levado ao fórum.

Só então senti-me aliviado. Estavam todos ali, os que me querem bem, os que acreditam em mim e aqueles a quem a "injustiça" alcançou com suas garras.

Foram várias horas de tensão. Meu futuro em jogo. 

Em breves momentos pude rever amigos que me são caros, que passaram horas naquele local para expressar solidariedade e amizade.

Mentalmente, dirigi uma prece de gratidão à Jah.

E isso foi apenas a metade do caminho. Faltava a volta. O fim da linha, para mim, seria novamente a Penitenciária de Iperó. 

Eu retornaria ao mesmo local, à mesma cela, onde conquistei uma cama, após dois longos anos dormindo no chão?

O "trânsito" do retorno foi pior, se é que pode ser possível piorar algo já péssimo e cheguei em Iperó dia 27 de agosto, dezesseis dias depois.

Seriam 280km de distância - ida e volta. Duzentos e oitenta quilômetros que duraram dezesseis dias.

Dezesseis dias de superlativo sofrimento físico e moral.

Para arrematar minha jornada ao inferno do Sistema Prisional Paulista, conto, ainda, que perdi minha vaga, minha cama e a "família" que havia cultivado nos dois últimos anos.

Agora, voltei à dormir no chão da cela, com um desconhecido colocando o pé em meu rosto. 
Começo do zero.

Mais do que nunca, reconheço a força do meu Jah. É ele que me sustenta, me fortalece e me dá o refúgio do Seu amor, da Sua misericórdia.

Passei por uma provação muito grande e em meu coração só sinto gratidão, gratidão.

Nas horas mais amargas, este poema me inspirou e me fez compreender Espíritos como o de Nelson Mandela, que passou pelas agruras do cárcere:

Dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado a lado
Agradeço aos deuses que existem
por minha alma indomável
Sob as garras cruéis das circunstâncias
eu não tremo e nem me desespero
Sob os duros golpes do acaso
Minha cabeça sangra, mas continua erguida
Mais além deste lugar de lágrimas e ira,
Jazem os horrores da sombra.
Mas a ameaça dos anos,
Me encontra e me encontrará, sem medo.
Não importa quão estreito o portão
Quão repleta de castigo a sentença,
Eu sou o senhor de meu destino
Eu sou o capitão de minha alma.

7 comentários:

  1. Triste..
    Ver um amigo nessa condição..
    Você perde as palavras entre a cabeça e o coraçao

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  2. Triste..
    Ver um amigo nessa condição..
    Você perde as palavras entre a cabeça e o coraçao

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  3. Que Deus, Jeová, Ja traga justiça a você! Força rasgerladinho!

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  4. força ras, nunca estarás sozinho, sua luta é pela liberdade e amor, dignidade tu tens ao acordar até a hora de dormir, e os que te julgam, são uns pobres infelizes

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  5. força ras, nunca estarás sozinho, sua luta é pela liberdade e amor, dignidade tu tens ao acordar até a hora de dormir, e os que te julgam, são uns pobres infelizes

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  6. MUITO triste ler isso. Queria poder fazer algo por esse injustica.

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